terça-feira, 15 de novembro de 2011

Sobre Medéia; de sua filha.

Aqui estou, envolta de culpa e dor de gente que não sabe como tudo foi acontecer. Fui morrer da dor de minha mãe, Medeia, com sua bravura e devoção ao mostrar-se mulher. É com essa fissura que perdi a vida, bem como ela a dela; não a culpo por não saber outro fim. Minha mãe foi gente sofrendo sem ter para onde ir, foi pessoa que geme enquanto morre. Minha mãe foi protetora felina de mim, nada mais.
Posso mesmo compreender que, por vezes, ela tenha sido cruel, muitas vezes em prol de sua felicidade ora por vingança. Contudo creio que minhã mãe assumiu suas melhores formas para mostrar aquilo que dói de fato. Medeia foi capaz de representar a dor em diversas pessoas, matou porque sentia o matar nela mesma e sofria a falta de existir enquanto matava cada um que lhe atormentara.
Pensando nisso, relembro as muitas vezes que meu pai, ainda que tenha sido solícito, tentara contornar e reverter as desgraças que minha mãe pretendia. Jamais ela se rendeu aos embaraçosos discursos de meu pai, Jasão. Muitas foram as vezes em que vi minha mãe e meu pai brigarem, inconformados com a discórdia; mamãe gritava e agitava os braços, enquanto papai, calmo tentava apaziguar o impossível. Meu pai jamais mudou qualquer opinião de mamãe e caso ela dissesse que sim, alguma coisa estava errada ou alguma coisa ela pretendia.
Compreedi a morte como um fardo, uma certa sina, destino de quem já sente, pressente que tudo desanda.
Quando via minha mãe muito calada, inquieta, sufocando de dor e lamento, enquanto a Ama pedia-me que ficasse longe dela, sabia, que a morte estava próxima. Sentia entre nós uma falsa empatia, como se fôssemos cão e gato, como se os astros me mostrassem que nossas vidas se cruzariam a ponto de fenecerem, como bem foi. A morte foi a reflexão da vida e num estalo, tudo escureceu.
Minha mãe sempre dizia que os mortais dramatizavam muito a morte, pois ela não passava de uma transgressão. Confesso que concordei com ela depois do acontecido, contudo é difícil esperar a morte de forma tranquila, muito mais quando sentimos a morte pelas mãos de nossa mãe.
Pois até que não foi tão brusco: ao vir de encontro a mim para matar-me, Medéia disse as seguintes palavras:

- Filha minha que com devoção cuidei, acariciei os cabelos todos os dias de sua vida, quero que saiba que os deuses me invocam para que seja feita justiça com nós mesmas. Sofro muito pelo que vou fazer, contudo é necessário para que outros mereçam o que bem devem e que morram de uma dor pior do que essa que agora entrego a ti.

Falando isso percebi seus olhos difusos e cerrados, como se não desejasse tal atitude, contudo percebia nela uma predestinação a tal comportamento. Mamãe seguia seus instintos e morria e matava por eles, independente de quem fosse.
Caso necessitasse culpar alguém, culparia o acaso, pois tudo que minha mãe e meu pai fizeram foi viver, contudo o desenrolar desta vivência ocasionou o ódio, desatino e tortura mútua. Jasão preferiu afastar-se largou quem mais o tinha afeto e deovção e, por isso, teve consigo a resposta do mostro que bem criou e Medéia, incompreendida e sentindo-se traída, invocou deuses e ultrapassou as barreiras da coincidências, transformando fatalidades em suas obra de arte colossal.
Minha mãe sempre dizia que um dia pagaria pelos seus atos tão nobres, pela sua constante dedicação. Ela dizia que o povo não sabe dar o algo bom à quem lhe quer bem. Dizia também que as pessoas deveriam ser marcadas para que soubéssemos que é mau e quem não é. O tempo que passei ao lado de minha mãe, percebi que ela dizia e agia de maneira correta, dedicava-se a papai como bem devia ser e amava os filhos também.
Todavia quando tudo desabou em suas mãos, percebi nela uma fera presa, obscura, como se tivesse dormido por muito tempo e, por isso, estava disposta a ser cruel até mesmo com quem mais amava. Mamãe expeliu todo o seu rancor e ódio e fez de mim um ato de covardia e ao mesmo tempo de justiça. Entendo, agora que repenso tudo, que mamãe quis mostrar a solidão, rejeição e despedida.